Mostrando postagens com marcador Trechos e Citações de Terceiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Trechos e Citações de Terceiros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Guardador de Águas - I

I
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

(O Guardador de Águas, Manoel de Barros)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Menino, Homem, Rei, Deus

"Todo o menino quer ser homem. Todo o homem quer ser rei. Todo o rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino."
(Leonardo Boff)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Trecho - A Insustentável Leveza do Ser

Primeira parte - 16

"Ao contrário de Parmênides, Beethoven considerava o peso como algo de positivo. "Der schwer gefasste Entschluss", a decisão gravemente pesada está associada à voz do Destino ("Es muss sein!"); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.
Essa convicção nasce da música de Beethoven, se bem que seja possível (ou talvez provável) que ela seja mais da responsabilidade dos exegetas de Beethoven do que do próprio compositor; todos nós a compartilhamos de certa forma hoje em dia: para nós, o que faz a grandeza de um homem é ele carregar seu destino como Atlas carregava sobre os ombros a abóboda celeste. O herói de Beethoven é um halterofilista que levanta pesos metafísicos.
(...)
Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

(Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pathos

Passível.
Passional.
Apaixonada.
Passadista.
Padecente.
Doente.
Dá na mesma.



"O Pathos da nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um 'sob' - eis a origem da oposição 'bom' e 'ruim' ".
(Nietzsche, GM I,2) Nietzsche - Genealogia da moral - Cia das letras (1998)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Trecho - O Cortiço

"Uma aluvião de cenas, que ela [Pombinha] jamais tentara explicar e que até ali jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Léonie lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a hora, os bens e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.
 - Ah, homens! homens! ... sussurrou ela de envolta com um suspiro."

(Aluísio de Azevedo, O Cortiço)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Capítulo 23 - O Guia do Mochileiro das Galáxias

"É um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa - a roda, Nova York, as guerras, etc. -, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens - exatamente pelos mesmos motivos.
Curiosamente, há muito que os golfinhos sabiam da destruição iminente do planeta, e faziam de tudo para alertar a humanidade; porém suas tentativas de comunicação eram geralmente interpretadas como gestos lúdicos com o objetivo de rebater bolas ou pedir comida, e por isso eles acabaram desistindo e abandonaram a Terra por seus próprios meios antes que os vogons chegassem.
A derraderia mensagem dos golfinhos foi entendida como uma tentativa extraordinariamente sofisticada de dar uma cambalhota dupla pra trás assobiando o hino nacional dos Estados Unidos, mas na verdade o significado da mensagem era: Adeus, e obrigado por todos os peixes.
Na verdade havia no planeta uma única espécie mais inteligente que os golfinhos, que passava boa parte do tempo nos laboratórios de pesquisa de comportamento, correndo atrás de rodas e realizando experiências incrivelmente elegantes e sutis com os seres humanos. O fato de que mais uma vez os homens interpretaram seu relacionamento com essas criaturas de um modo totalmente errado era justamente o que estava nos planos elaborados por elas."

(Douglas Adams, O Guia do Mocileiro das Galáxias)