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sábado, 8 de janeiro de 2011

Turbulência Oculta


Já me disseram que sou fria. Na verdade, me disseram que meus olhos são frios. Na verdade mesmo, que meus olhos são frios e, ao mesmo tempo, bons. Acho curiosos os fatos de isso ter ficado na minha cabeça por tanto tempo e de eu sempre dar tanta importância à visão que os outros têm de mim. Acontece que, até ontem, acreditava nunca ser capaz de avaliar meu próprio caráter com a mesma precisão de quem me observa por fora, sem saber meus poucos segredos, analisando puramente as ações.
Curioso foi meu receio entre acreditar ou não nessa análise em particular. Mesmo quando não gostamos do que ouvimos, se formos sinceros conosco, somos capazes de discernir aquilo em que acreditar daquilo a ser desacreditado. Dessa vez não fui capaz.
Dessa vez percebi que mal sei quem sou e que, do pouco que acredito de ser, não sei o quanto sou por minha criação e o quanto sou por minha culpa e meu mérito. Percebi que, embora até então eu supusesse que esse fosse o normal, vivo numa eterna supressão do que julgo ser meu lado ruim, enquanto na verdade mesmo estou suprimindo junto o melhor de mim.
E a batalha de exorcisar meus próprios demônios, sozinha graças à vergonha de pedir ajuda, é muito dolorosa. É difícil não me tornar fugitiva de mim mesma, sem refúgio, ainda mais quando já fujo de tantas outras coisas, sendo a maior delas, a mais gritante, a mais inegável verdade.
E a máscara de calma, inteligência e sabedoria que ainda visto vai ficando cada vez mais fina, frágil. Dessa vez não quero reconstruí-la. Quero ver se há algo que possa reconhecer no que sobrou do rosto sob ela.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Luto

Angel of Grief (?)

O luto é uma coisa idiota. Nos recolhemos em nossos mundinhos egoístas, vendo só a nossa própria dor, esperando que alguém venha nos pegar no colo e nos dizer o quanto reconhece nosso pesar. Achamos ultrajante a idéia de nos movermos para abraçar outro que sofre ao nosso lado. A dor do ego ferido, da solidão, se confunde com a dor da perda.
O luto é uma coisa cruel. Nos afasta quando precisamos uns dos outros, nos faz esquecer da esperança, nos traz à mente o que deveria ser afastado, ainda que por consideração aos que não poderiam se fazer presentes. Nos enfraquece, corrói, degrada, amortece, extingue. 
O luto dá raiva. É trazido à tona por fatores nada mais que naturais, mas que ainda assim parecem ir contra as leis da natureza. Nos força à resignação.
O luto é uma coisa engraçada. Desde que ele termine. Nos dá uma lição e nos faz renascer pelo menos mais preparados, mais fortes. "O que não mata fortalece." Mas veja bem... Quantos precisam morrer para que se passe pelo luto? Apenas você mesmo.