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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Trechos de uma Noite Depressiva

"Sou uma hipopótama enfiada num tutu de ballet, dentro de uma caixinha de música em que você continua dando corda porque sabe como seu ego se regojiza ao me ver dançar ao som da sua voz. Mas prefiro acreditar que você seja mais justo do que isso.
Ou, talvez, na verdade você não dê corda, e eu é que insisto em dançar, patética, na sua frente, implorando por atenção. Essa alternativa é mais dura de encarar. Talvez porque seja mais provavelmente a verdadeira."

"Insisto nessa angústia, mais pesada que uma mera melancolia, porque é ela que me confere alguma identidade para que eu possa aguentar essa insustentável e insuportável leveza agoniante. Sem esse pesar, me sinto esvair, e não há mais nada em minha visão a que eu possa me agarrar por essa noite. É essa dor intangível que me faz e mantém humana."

"Acho que eu preciso mesmo é que (...)" Inapropriado para menores. "Hormônios do inferno. Argh."

"Esses diminutivos entram na lista das pequenas irritações não intencionais e espontâneas que ainda não sei se sei viver sem."

"O choque da realidade é violento demais para os introvertidos e alienados. Não que isso seja novidade. É só uma constatação. É compreensível a escolha pela alienação."

domingo, 8 de janeiro de 2012

Palavras mudas

Das pegadas que não deixei,
da canção que não toquei,
disso tudo eu sinto falta
Não que faça sentido
Não faz sentido isso de sentir falta do que não experimentei
                                            Mas são as palavras
                                            nunca ditas, amargas,
                                            que tiram o sono
Embora sejam as palavras doces as que realmente me assombram
enquanto não ditas
presas em ideia
enquanto sem efeito sobre seus destinatários ignorados e indiferentes
                                            Qual a cruz que carrego?
                                            Palavras mudas.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Parêntese

Um parêntese de irrealidade em meio ao caos. É essa a impressão que tive. As únicas provas que tenho de que realmente aconteceu são alguns hematomas e um vestido. E os hematomas infelizmente hão de passar logo.
Vou fazer uma lista dos nomes daqueles que conheci por uma semana como se tivesse sido por uma vida inteira. E vou esquecê-los um por um.
Não me leve a mal. É que só conheço dois jeitos de não me magoar: Não me permitir ou não me importar. E, como não consigo não me importar, decidi não me permitir, até que não consegui mais. Então resolvi procurar um terceiro jeito: esquecer.
É, no entanto, triste e injusto, reconheço. Foram, afinal, minhas melhores estupidezes. Se eu falhar em esquecer, vou ter de aprender a lidar com essas lembranças doce-amargas, apreciando-as, mas sem desejá-las de volta.
Como as palavras entre parênteses, que são dispensáveis embora atribuam novos significados ao texto, essas memórias, apesar de prazerosas, são sofridas e dificultam o entendimento da história como um todo. Por isso, esquecer é mais fácil e dói menos, mesmo que tenham sido meus mais bem cometidos erros, e mesmo que isso impeça que eu me arrependa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Do que posso falar

Não posso falar do tempo porque vivi pouco.
Não posso falar sobre lugares, porque não conheço muitos.
Não posso falar de dinheiro porque não ganho o meu próprio.
Não posso falar de literatura, de história nem de eletrônicos porque não sei muito dessas coisas.
Não posso falar de política porque... Bom, na verdade, só porque a minha única opinião sólida é que nem sempre vale a pena ter uma opinião formada.

Eu poderia falar das minhas opiniões.
Eu poderia falar de mim,
como estou fazendo agora,
mas você provavelmente não estaria interessado.

Eu poderia falar de música, mas não espere muita coisa.
Eu poderia falar um pouco sobre lírios africanos
ou sobre evolução estelar
e o que significa quando dizem que somos apenas poeira de supernovas.
Eu poderia falar de medos e motivações inconscientes.
Eu poderia falar de companhia e solidão ou de leveza e peso.
Temo que às vezes pareça que não tenho do que lhe falar,
mas a verdade mesmo é que prefiro falar de você.

domingo, 4 de setembro de 2011

Todos Sabem como É

Todos sabem como é cantar alto achando que não há ninguém ouvindo. Ou falar com o espelho ou dançar vergonhosamente achando que não há ninguém vendo.
Todos sabem como é colocar aquilo de maior valor a perder por pequenos atos negligentes acumulados. E então olhar para trás com arrependimento, mas ainda pensando "Se eu bem me conheço, mesmo que tivesse percebido a burrada que estava fazendo, não teria tido a coragem de tentar evitar o ocorrido.".
Todos sabem como é tentar lembrar o que significa estar em casa enquanto se está numa roda de amigos sem conseguir interagir com eles por estar debilmente tentando esquecer como era se apaixonar.
Todos sabem como é ter medo de sentir.
Todos sabem como é dizer que se sente bem, querendo na verdade dizer o contrário. E todos sabem também que alívio é quando um amigo consegue ver as lágrimas que não derramamos.
Todos sabem como é ter medo da solidão.
Todos sabem como é querer assumir responsabilidade por tudo, sem admitir que não conseguimos dar conta, sem admitir que não somos onipotentes.
Todos sabem como é assumir a culpa por algo sem nem acreditar que a culpa seja de fato sua.
Todos sabem como é bom silêncio de vez em quando. E como é bom um abraço quando se quer silêncio.
Todos sabem como é não poder ser otimistas e honestos ao mesmo tempo.
Todos sabemos como é isso tudo, não sabemos? Sabemos, não sabemos? Não sabemos? Não...?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Zênite

Estava de saída, não  lembrava para onde. Um lugar qualquer. Qualquer lugar. Tanto fazia. Levava os pedaços de um coração rasgado e arremendado várias vezes seguidas, um punhado de esperança e uma garrafa de vinho, carmenère, mas nenhuma taça. Era só o que levava, mas era toda a bagagem de que necessitava. Não tinha horário para chegar - nem sabia aonde ia -, tampouco tinha relógio, mas estava apressada como nunca.
Agora fora de casa, ia aonde os pés descalços levavam: Um lugar em que o horizonte se estendesse livremente sem encobrir o céu, em que se pudesse deitar sobre a grama e cair no infinito do céu noturno. Ao encontro de mãos que percorressem os equadores das curvas do corpo - todos eles. Ao encontro da última face que ocuparia o Zênite.
(16/08/2011)

domingo, 14 de agosto de 2011

Pai

Quando eu era pequena, pedia ao meu pai: “Pai, me ensina tudo o que você sabe?”
Hoje rio ao lembrar, mas naquela idade me angustiava saber tão pouco, porque tinha certeza de que para ser uma boa pessoa, ter um emprego e uma vida confortável era preciso saber tudo o que havia para se saber. Eu devia ter uns... quatro, cinco anos? Por aí. E questões como minha qualidade de vida futura e se eu era de fato uma princesa já me tiravam o sono. [HAHA]
Fui crescendo, meus pais foram parando de me chamar de princesinha, e, em meio a muitas conversas sobre impedância, linguagem de computação e microscopia eletrônica durante jantares em família, acabei aprendendo várias das coisas que meu pai sabia. Com certeza, uma fração minúscula do total, mas era o suficiente para que eu me sentisse um passo à frente de meus colegas, o que era muito bobo da minha parte, diga-se de passagem.
Como percebi mais tarde, mais de um caminho leva ao sucesso, até mesmo porque sucesso não significa o mesmo para todos. Então talvez, apenas talvez, eu estivesse um passo à frente no meu caminho, mas os caminhos dos meus amigos não passavam por aquele passo, e isso não significava que eles estavam atrás de mim, de maneira alguma.
Foi assim que percebi que talvez, apenas talvez, mas muito provavelmente, boa parte daquele conhecimento que fazia parte do caminho do meu pai não seria de grande utilidade para mim. E desde então eu parei de conversar com meu pai sobre física, já que sou da área de biológicas. Lógico que NÃO! [HAHA] Só porque determinado conhecimento não nos parece aplicável no dia-a-dia, não significa que não possamos ter curiosidade. Além do mais, física era só um dos assuntos nas pautas dos jantares.
Desse mesmo modo, agora que estou divergindo do caminho inicial que a maioria percorre e buscando o meu próprio, vejo que meu pai finalmente desconhece algumas das coisas que estou aprendendo. Mas, seja qual for a motivação, ele nunca se mostrou desinteressado, muito pelo contrário. Conto com o apoio e o abrigo dele porque ele nunca deixou que nada me faltasse. Mais do que isso, conto com o amor e o carinho dele porque foi só com isso que ele me tratou. Agora nada menos justo que uma demonstração de gratidão, certo? Porque é isso o que estou querendo dizer com toda essa baboseira. Sou grata. Talvez não o suficiente, mas tão grata quanto já fui. E espero que ele saiba que sua filha o ama muito.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As Piores Declarações de Amor

  • "Você é perfeito/a."
-Então você não está olhando direito.
-Mas eu também gosto dos seus defeitos!
-Mentira. Até porque isso iria contra a definição de defeito.
1º Fato: Não existe pessoa alguma no mundo inteiro que lhe agrade em todos os aspectos.

  • "Vou amar você para sempre."
-Tá... Mas você vai amar o que eu sou hoje, então? Digo, espero que daqui a alguns anos eu tenha amadurecido um bocado, não serei o/a mesmo/a. E, como nem eu mesmo/a sei quem serei então, como você pode prometer amar o que não conhece? E então você continuaria a amar o que eu era, e não a pessoa em quem eu me tornaria... Ou seja, você amaria alguém que não existiria mais. É  isso mesmo?
-Não! Algo em você sempre permanecerá, certo? Todos  temos alguma essência que é imutável!
-Ahm... Tá. Só que você não tem como saber que parcela do que você chama de minha personalidade é a minha essência. Fora que você também pode - e provavelmente vai - mudar. Você pode mudar de gosto. E você não tem como saber do que vai gostar, se ainda vai gostar do que sou hoje ou se vai gostar do que serei no futuro. E também não tem como prometer que isso não vai acontecer.
2º Fato: Nós mudamos quando amadurecemos, bem como nossos amores.

  • "Eu preciso de você."
-Quer uma mão pra trocar a lâmpada?
-Não, quis dizer que não sei ser feliz sem sem você! *-*
-Cê tá de brinks. '-'
-Não... '-'
-Você está dizendo então que eu sou a única opção para você. É bem isso?
-É...
-Que, já que não há outra opção, não há uma escolha. É isso?
-Acho que é...
-Poxa, achava que você me amava. '-'
-E isso não quer dizer que eu te amo? o_o
-Não, né. Isso quer dizer que você só está comigo porque não tinha escolha.
3º Fato: Só se ama de verdade quando há escolha, quando se pode ser feliz apesar da ausência daquele ser amado, mas se escolhe ser feliz com ele e assim compartilhar e semear a felicidade.


Muitos vão olhar isso com desprezo e negar o que aqui foi dito. Em todo caso, deixo a declaração de amor mais sincera que posso fazer:
"Sabe, eu bem que poderia ser feliz sem você, mas não quero."

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Dia em que me Sepultei

O luto me emudeceu quando morri. Tomada por auto-piedade, estava paralisada frente a meu túmulo selado recentemente. Aquele túmulo que abrigava, obrigava, abrigava meus últimos vestígios de inspiração e paixão, tudo o que em mim era música, todo o coro de minha miríade de vozes falecidas, toda a poesia, todo impulso. Pulso. Aquele meio corpo não pulsava mais, inerte. Em vez disso, no que sobrava de mim do lado de  fora pulsava o frio, por dentro e em volta. A cada arrepio a melancolia diminuía, e sobrava, cada vez mais só, a certeza de que serenidade era apenas um eufemismo para monotonia e tédio.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Poder Mudar II

Eu sempre acreditei que as pessoas podiam mudar. Olhava para o que eu achava que havia sido e para o que achava que tinha me tornado e sentia algum orgulho por, supostamente, ter alcançado meu objetivo e ser o que desejava ser.
Então os anos passaram, os colegas passaram, as fases passaram e as críticas também, mas chega uma hora em que as pessoas, com razão, não têm mais tempo nem interesse de ouvir desculpas forjadas no mesmo molde falho, e os anos, os colegas e as fases que seguiram, inéditos, trouxeram críticas humilhantemente similares. E aí a coragem de olhar no espelho falhou.
Minha coragem falhou comigo como venho falhando com meus colegas, meus amigos, minha família e a sociedade. Mas minha coragem é minha responsabilidaede e sua falha só agrava as minhas pois delas faz parte.
Pedi perdão algumas vezes, mas queria mesmo era pedir perdão por saber que continuaria a cometer os mesmos erros. Acho que muitas dessas vezes só procurava por autoindulgências, afinal, e agora quero de novo ser perdoada e poder me perdoar por isso.
Eu sempre acreditei que as pessoas podiam mudar. Isso não significa que não acredite mais que elas possam, mas que nem sempre isso acontece ou que, quando acontece, nem sempre acontece como se planeja.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Lágrima

O ar esvaziou os pulmões ao final do mais profundo suspiro, enquanto uma lágrima solitária rolou dos olhos para os cílios e deles pelo rosto abaixo, até as lábios.
O doce sabor de melancolia se espalhou pela boca e invadiram-lhe o pensamento as lembranças, agora já vagas, daqueles momentos que, embora muito profundos, passaram rápidos como um albatroz, lançando impiedosamente uma sombra por sobre qualquer outro pensamento, aprisionando-a como uma escrava de suas memórias. Não se sentia triste, muito menos feliz. Agora percebia mais claramente do que nunca que em sua existência sempre haveria uma lacuna, e a decisão de preenchê-la ou não implicava o mais agoniante dos paradoxos. Qualquer idéia seria inútil, qualquer fantasia seria inviável. Qualquer vislumbre de consciência seria efêmero. Ela se deliciava nesse vício, e a dúvida de se de fato o queria passava menosprezada.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pathos

Passível.
Passional.
Apaixonada.
Passadista.
Padecente.
Doente.
Dá na mesma.



"O Pathos da nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um 'sob' - eis a origem da oposição 'bom' e 'ruim' ".
(Nietzsche, GM I,2) Nietzsche - Genealogia da moral - Cia das letras (1998)

segunda-feira, 14 de março de 2011

DesPedidos

Eu quis que você me contasse cada detalhe de como foi seu dia. Mais do que isso, eu quis que você quisesse que eu soubesse como vai você. Mas isso eu nunca teria pedido.
Eu quis fazer de você meu diário e expor a você gradualmente todas as sombras do meu passado e cada segredo até então engenhosamente oculto. Mais do que isso, quis que você quisesse insaciavelmente descobrir minhas raízes. Mas isso eu nunca teria pedido.
Eu quis delegar ao seu cuidado tudo o que acreditava ser. Mais do que isso, eu quis que você quisesse que eu confiasse em você. Mas isso eu nunca teria pedido.
Eu queria esquecer você de vez. Mais do que isso, queria que essa simples idéia o horrorizasse e que você quisesse fazer de tudo para que nós não nos afastássemos. Queria pelo menos saber o que eu poderia ter feito ou deixado de fazer para que isso tivesse alguma possibilidade de acontecer. Mas nada disso eu pediria. Não poderia pedir. Não faria sentido pedir.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Oiseau Rebelle

Parece inevitável procurar em cada gesto seu significados subjacentes e, não os encontrando, anexar automaticamente os que vieram da minha mais egocêntrica imaginação.
Mesmo tendo - ou crendo ter - consciência disso, continuo estúpida e ridiculamente lutando contra o dia em que seu toque ou sua voz não me causarão mais arrepios.
E, se, como a canção diz, o amor é uma ave rebelde e indomável, me surpreende eu acreditar que no momento queira ironicamente apenas espantá-la.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Turbulência Oculta


Já me disseram que sou fria. Na verdade, me disseram que meus olhos são frios. Na verdade mesmo, que meus olhos são frios e, ao mesmo tempo, bons. Acho curiosos os fatos de isso ter ficado na minha cabeça por tanto tempo e de eu sempre dar tanta importância à visão que os outros têm de mim. Acontece que, até ontem, acreditava nunca ser capaz de avaliar meu próprio caráter com a mesma precisão de quem me observa por fora, sem saber meus poucos segredos, analisando puramente as ações.
Curioso foi meu receio entre acreditar ou não nessa análise em particular. Mesmo quando não gostamos do que ouvimos, se formos sinceros conosco, somos capazes de discernir aquilo em que acreditar daquilo a ser desacreditado. Dessa vez não fui capaz.
Dessa vez percebi que mal sei quem sou e que, do pouco que acredito de ser, não sei o quanto sou por minha criação e o quanto sou por minha culpa e meu mérito. Percebi que, embora até então eu supusesse que esse fosse o normal, vivo numa eterna supressão do que julgo ser meu lado ruim, enquanto na verdade mesmo estou suprimindo junto o melhor de mim.
E a batalha de exorcisar meus próprios demônios, sozinha graças à vergonha de pedir ajuda, é muito dolorosa. É difícil não me tornar fugitiva de mim mesma, sem refúgio, ainda mais quando já fujo de tantas outras coisas, sendo a maior delas, a mais gritante, a mais inegável verdade.
E a máscara de calma, inteligência e sabedoria que ainda visto vai ficando cada vez mais fina, frágil. Dessa vez não quero reconstruí-la. Quero ver se há algo que possa reconhecer no que sobrou do rosto sob ela.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Momento de Gratidão

Não é maravilhoso existir? Não é extraordinário ser uma mente pensante [o que não é redundante, se você pensar bem] em meio ao caos, à força e à fragilidade da vida? Ter nascido, dentre todas as espécies, humano.
Não é incrível a independência funcional dos organismos, a mobilidade do corpo, a transcendência da mente?
Não é bom ter um prato de comida quando dá fome, um teto sobre a cabeça quando chove, ter agasalho quando faz frio?
Não é um alívio ter onde e em quem se abrigar quando se sente vulnerável, quem não nos deixe conhecer a solidão mesmo quando pedimos que nos privem de companhia? Não é comovente ter quem amar?
Não é maravilhoso existir e poder agradecer por não sermos os únicos, sem deixarmos de sermos únicos em nossa individualidade?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desapaixonar-se

Quando o mundo finalmente pára de girar em torno daquela pessoa em especial e se pára junto e olha em volta... percebe-se que nada mais daquilo faz sentido.
Todas as perseguições mentais, as últimas reflexões, todo o arrependimento pelo que não foi dito e todo o tempo perdido elaborando frases cujo som nunca seria ouvido. Tudo perde seu propósito. A personalidade até então assumida parece fora de lugar. É hora de tirar do baú o resto do antigo eu, menosprezado, esquecido, trocado por anexos de identidade incompatíveis.
Desesperança, agora libertadora, sempre entorpecente. Até quando será preciso tê-la por perto para que não haja riscos de recaída? Resignação em todos os aspectos.
Gritos mudos enchem a alma como num enxame a querer sair pela boca.

Trecho - O Cortiço

"Uma aluvião de cenas, que ela [Pombinha] jamais tentara explicar e que até ali jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Léonie lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a hora, os bens e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.
 - Ah, homens! homens! ... sussurrou ela de envolta com um suspiro."

(Aluísio de Azevedo, O Cortiço)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amigos

Você virá me contar sobre as desgraças do seu dia, e eu vou chamar você de dramático.
Você vai me ligar no meio da noite de quarta-feira só porque você não tinha mais nada pra fazer. Eu vou ligar pra você na noite de sábado chorando só porque levei um fora daqueles, então você vai me dizer pra criar vergonha na cara e dar mais valor a mim mesma.
Eu vou me olhar no espelho e dizer que, se eu não fosse gorda, eu não teria passado por metade dos problemas pelos quais passei, e você vai me mandar calar a boca porque eu não estou gorda, mesmo que isso seja uma mentira.
Você vai me dar um abraço apertado quando eu passar no vestibular e vai me incentivar a ir a todas as festas de faculdade às quais você sabe que eu jamais iria.
Você vai rir da minha cara toda vez que eu não souber uma resposta e eu vou fazer todo o drama em cima disso. Então você vai perceber que só o chamo de dramático por pura hipocrisia.
Eu vou ligar pra você no meio da noite de quarta-feira só por causa da bendita TPM. Vou arranjar desgraças na minha vida em que eu possa colocar a culpa por minha irritabilidade pra fazer ainda mais drama em cima disso também. E você nem vai se dar o trabalho de se fingir interessado e vai dormir do outro lado do telefone, eu vou lhe dar uma bronca e você vai acordar, mesmo que eu não tenha realmente ficado brava.
Você vai falar um palavrão na minha frente e vai morrer de vergonha e pedir um milhão de desculpas. Então um dia eu vou soltar um bem articulado "puta que pariu", e você, depois do choque inicial, vai passar a falar toda a sorte de palavrões que conhece na minha presença sem a menor culpa.
Você vai arranjar uma menina linda, inteligente e engraçada, mas eu vou odiá-la até a morte. Porque eu vou morrer de ciúmes do tempo que você vai passar com ela. Porque eu vou morrer de medo de que você se esqueça de me ligar no meio da quarta à noite quando não tiver nada pra fazer.
Porque hoje, graças a Deus, tenho a segurança de dizer que somos amigos. :)