domingo, 14 de agosto de 2011

Pai

Quando eu era pequena, pedia ao meu pai: “Pai, me ensina tudo o que você sabe?”
Hoje rio ao lembrar, mas naquela idade me angustiava saber tão pouco, porque tinha certeza de que para ser uma boa pessoa, ter um emprego e uma vida confortável era preciso saber tudo o que havia para se saber. Eu devia ter uns... quatro, cinco anos? Por aí. E questões como minha qualidade de vida futura e se eu era de fato uma princesa já me tiravam o sono. [HAHA]
Fui crescendo, meus pais foram parando de me chamar de princesinha, e, em meio a muitas conversas sobre impedância, linguagem de computação e microscopia eletrônica durante jantares em família, acabei aprendendo várias das coisas que meu pai sabia. Com certeza, uma fração minúscula do total, mas era o suficiente para que eu me sentisse um passo à frente de meus colegas, o que era muito bobo da minha parte, diga-se de passagem.
Como percebi mais tarde, mais de um caminho leva ao sucesso, até mesmo porque sucesso não significa o mesmo para todos. Então talvez, apenas talvez, eu estivesse um passo à frente no meu caminho, mas os caminhos dos meus amigos não passavam por aquele passo, e isso não significava que eles estavam atrás de mim, de maneira alguma.
Foi assim que percebi que talvez, apenas talvez, mas muito provavelmente, boa parte daquele conhecimento que fazia parte do caminho do meu pai não seria de grande utilidade para mim. E desde então eu parei de conversar com meu pai sobre física, já que sou da área de biológicas. Lógico que NÃO! [HAHA] Só porque determinado conhecimento não nos parece aplicável no dia-a-dia, não significa que não possamos ter curiosidade. Além do mais, física era só um dos assuntos nas pautas dos jantares.
Desse mesmo modo, agora que estou divergindo do caminho inicial que a maioria percorre e buscando o meu próprio, vejo que meu pai finalmente desconhece algumas das coisas que estou aprendendo. Mas, seja qual for a motivação, ele nunca se mostrou desinteressado, muito pelo contrário. Conto com o apoio e o abrigo dele porque ele nunca deixou que nada me faltasse. Mais do que isso, conto com o amor e o carinho dele porque foi só com isso que ele me tratou. Agora nada menos justo que uma demonstração de gratidão, certo? Porque é isso o que estou querendo dizer com toda essa baboseira. Sou grata. Talvez não o suficiente, mas tão grata quanto já fui. E espero que ele saiba que sua filha o ama muito.

sábado, 30 de julho de 2011

Este blog não foi abandonado. Acontece que a autora está passando por um terrível e longo período de falta de criatividade.
Grata,         
Clara       

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As Piores Declarações de Amor

  • "Você é perfeito/a."
-Então você não está olhando direito.
-Mas eu também gosto dos seus defeitos!
-Mentira. Até porque isso iria contra a definição de defeito.
1º Fato: Não existe pessoa alguma no mundo inteiro que lhe agrade em todos os aspectos.

  • "Vou amar você para sempre."
-Tá... Mas você vai amar o que eu sou hoje, então? Digo, espero que daqui a alguns anos eu tenha amadurecido um bocado, não serei o/a mesmo/a. E, como nem eu mesmo/a sei quem serei então, como você pode prometer amar o que não conhece? E então você continuaria a amar o que eu era, e não a pessoa em quem eu me tornaria... Ou seja, você amaria alguém que não existiria mais. É  isso mesmo?
-Não! Algo em você sempre permanecerá, certo? Todos  temos alguma essência que é imutável!
-Ahm... Tá. Só que você não tem como saber que parcela do que você chama de minha personalidade é a minha essência. Fora que você também pode - e provavelmente vai - mudar. Você pode mudar de gosto. E você não tem como saber do que vai gostar, se ainda vai gostar do que sou hoje ou se vai gostar do que serei no futuro. E também não tem como prometer que isso não vai acontecer.
2º Fato: Nós mudamos quando amadurecemos, bem como nossos amores.

  • "Eu preciso de você."
-Quer uma mão pra trocar a lâmpada?
-Não, quis dizer que não sei ser feliz sem sem você! *-*
-Cê tá de brinks. '-'
-Não... '-'
-Você está dizendo então que eu sou a única opção para você. É bem isso?
-É...
-Que, já que não há outra opção, não há uma escolha. É isso?
-Acho que é...
-Poxa, achava que você me amava. '-'
-E isso não quer dizer que eu te amo? o_o
-Não, né. Isso quer dizer que você só está comigo porque não tinha escolha.
3º Fato: Só se ama de verdade quando há escolha, quando se pode ser feliz apesar da ausência daquele ser amado, mas se escolhe ser feliz com ele e assim compartilhar e semear a felicidade.


Muitos vão olhar isso com desprezo e negar o que aqui foi dito. Em todo caso, deixo a declaração de amor mais sincera que posso fazer:
"Sabe, eu bem que poderia ser feliz sem você, mas não quero."

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Dia em que me Sepultei

O luto me emudeceu quando morri. Tomada por auto-piedade, estava paralisada frente a meu túmulo selado recentemente. Aquele túmulo que abrigava, obrigava, abrigava meus últimos vestígios de inspiração e paixão, tudo o que em mim era música, todo o coro de minha miríade de vozes falecidas, toda a poesia, todo impulso. Pulso. Aquele meio corpo não pulsava mais, inerte. Em vez disso, no que sobrava de mim do lado de  fora pulsava o frio, por dentro e em volta. A cada arrepio a melancolia diminuía, e sobrava, cada vez mais só, a certeza de que serenidade era apenas um eufemismo para monotonia e tédio.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Querido Cérebro

Querido Cérebro,

Preciso lhe dizer algumas coisas que venho guardando em meu íntimo há algum tempo.
Não aguento mais essa sua incompreensão. Você vive me mandando ser menos bobo, ponderar melhor os prós e contras antes de fazer qualquer coisa, ser mais discreto, menos efusivo... Será que você não entende que sou, por definição, passional? Agir com os sentimentos é minha condição de existência.
Você vive reclamando do que faço, diz que tudo se desequilibra por minha culpa, desde as mãos que tremem até a balança cujo ponteiro sobe. Mas quer saber de uma coisa (não responda)? É muito melhor viver assim do que no seu ritmo entediantemente certinho, como uma máquina. Será que você não entende as vontades movidas unicamente pela beleza e pelo prazer? Será que você não entende que eu sou o seu eu-lírico?
Então, se você puder, deixe-me ser. Deixe-me ser mais vezes. Acredite em mim: você não quer viver num mundo limitado a racionalidades superficiais.

Grato      
Coração

[Inspiração creditada ao meu amiguíssimo Yuri aka Yureco da titia.]

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ode aos Capacetes

Oh, belo capacete
que me protege o cocuruto,
Preciso lhe arranjar
melhor rima que "eunuco"

Pois estes versos são feitos
da mais pura gratidão
por ter mantido a integridade
do meu loiro cabeção.

Capacetes de qualidade
de todas as cores
de todas as formas
de todos os sabores

Seus méritos se estendem
pelas pistas de corrida,
por edifícios em construção
e pela Gruta Colorida.

Nossos encéfalos protegem
com amor maternal;
Sem vocês viveríamos
em estado vegetal.

[Acredito que isso exprima minimamente a gratidão de todos os que visitaram a Gruta Colorida com lindos capacetes coloridos :B ]

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Maldita Compreensão

A gente praticamente nasce aprendendo a suprimir nossos acessos de raiva, mas chega uma hora em que precisamos explodir, e não basta xingar ao vento; precisamos de alguém que escute tudo quase que em silêncio, alguém que não nos diga que poderia ser pior, alguém que não nos diga que nos entende. Precisamos que nos digam um simples "Se fodeu".
Não há nada mais irritante do que um amigo compreensivo nessas horas, tentando nos forçar a dizer algo positivo, enquanto tudo o que queremos é fazer uso de todo o nosso arsenal de palavrões. E nem  mesmo menininhas delicadinhas são exceção. Pelo menos não depois dos quinze anos. Ainda menos quando se usam diminutivos em referência a elas.
Pior ainda quando os seres compreensivos são nossos pais. Pais compreensivos são um obstáculo na execução do sistema operacional instalado em todo filho, que nos impele a contrariar nossos genitores e a nos rebelarmos contra eles. Na verdade, tal extensão de compreensibilidade tem de ser muito parcial, uma vez que, se nossos pais nos compreendessem integralmente, eles estariam cientes de nossa necessidade de rebelião e fingiriam que somos incompreensíveis. Felizmente, a compreensão integral parental nunca foi detectada, o que nos permite supor que seja inexistente. A detecção da compreensão integral significaria que estaríamos cientes da farsa na incompreensibilidade e da total compreensão legítima, o que nos levaria a um estado paradoxal extremo, com risco de morte por implosão cerebral. Outro problema na compreensão parental, parcial ou hipoteticamente integral, é que nossos pais nunca vão dizer "Se fodeu" para a gente. Salvas algumas raras exceções, claro.
É aconselhável, portanto, que, em momentos de alta frustração, se busque o amigo mais filho da puta disponível e seja mantida distância de pessoas potencialmente compreensivas. Em caso de indisponibilidade de amigos filhos da puta, assegure-se ao menos de que a pessoa de quem você pretende se acercar permaneça calada.