domingo, 4 de setembro de 2011

Todos Sabem como É

Todos sabem como é cantar alto achando que não há ninguém ouvindo. Ou falar com o espelho ou dançar vergonhosamente achando que não há ninguém vendo.
Todos sabem como é colocar aquilo de maior valor a perder por pequenos atos negligentes acumulados. E então olhar para trás com arrependimento, mas ainda pensando "Se eu bem me conheço, mesmo que tivesse percebido a burrada que estava fazendo, não teria tido a coragem de tentar evitar o ocorrido.".
Todos sabem como é tentar lembrar o que significa estar em casa enquanto se está numa roda de amigos sem conseguir interagir com eles por estar debilmente tentando esquecer como era se apaixonar.
Todos sabem como é ter medo de sentir.
Todos sabem como é dizer que se sente bem, querendo na verdade dizer o contrário. E todos sabem também que alívio é quando um amigo consegue ver as lágrimas que não derramamos.
Todos sabem como é ter medo da solidão.
Todos sabem como é querer assumir responsabilidade por tudo, sem admitir que não conseguimos dar conta, sem admitir que não somos onipotentes.
Todos sabem como é assumir a culpa por algo sem nem acreditar que a culpa seja de fato sua.
Todos sabem como é bom silêncio de vez em quando. E como é bom um abraço quando se quer silêncio.
Todos sabem como é não poder ser otimistas e honestos ao mesmo tempo.
Todos sabemos como é isso tudo, não sabemos? Sabemos, não sabemos? Não sabemos? Não...?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Zênite

Estava de saída, não  lembrava para onde. Um lugar qualquer. Qualquer lugar. Tanto fazia. Levava os pedaços de um coração rasgado e arremendado várias vezes seguidas, um punhado de esperança e uma garrafa de vinho, carmenère, mas nenhuma taça. Era só o que levava, mas era toda a bagagem de que necessitava. Não tinha horário para chegar - nem sabia aonde ia -, tampouco tinha relógio, mas estava apressada como nunca.
Agora fora de casa, ia aonde os pés descalços levavam: Um lugar em que o horizonte se estendesse livremente sem encobrir o céu, em que se pudesse deitar sobre a grama e cair no infinito do céu noturno. Ao encontro de mãos que percorressem os equadores das curvas do corpo - todos eles. Ao encontro da última face que ocuparia o Zênite.
(16/08/2011)

domingo, 14 de agosto de 2011

Pai

Quando eu era pequena, pedia ao meu pai: “Pai, me ensina tudo o que você sabe?”
Hoje rio ao lembrar, mas naquela idade me angustiava saber tão pouco, porque tinha certeza de que para ser uma boa pessoa, ter um emprego e uma vida confortável era preciso saber tudo o que havia para se saber. Eu devia ter uns... quatro, cinco anos? Por aí. E questões como minha qualidade de vida futura e se eu era de fato uma princesa já me tiravam o sono. [HAHA]
Fui crescendo, meus pais foram parando de me chamar de princesinha, e, em meio a muitas conversas sobre impedância, linguagem de computação e microscopia eletrônica durante jantares em família, acabei aprendendo várias das coisas que meu pai sabia. Com certeza, uma fração minúscula do total, mas era o suficiente para que eu me sentisse um passo à frente de meus colegas, o que era muito bobo da minha parte, diga-se de passagem.
Como percebi mais tarde, mais de um caminho leva ao sucesso, até mesmo porque sucesso não significa o mesmo para todos. Então talvez, apenas talvez, eu estivesse um passo à frente no meu caminho, mas os caminhos dos meus amigos não passavam por aquele passo, e isso não significava que eles estavam atrás de mim, de maneira alguma.
Foi assim que percebi que talvez, apenas talvez, mas muito provavelmente, boa parte daquele conhecimento que fazia parte do caminho do meu pai não seria de grande utilidade para mim. E desde então eu parei de conversar com meu pai sobre física, já que sou da área de biológicas. Lógico que NÃO! [HAHA] Só porque determinado conhecimento não nos parece aplicável no dia-a-dia, não significa que não possamos ter curiosidade. Além do mais, física era só um dos assuntos nas pautas dos jantares.
Desse mesmo modo, agora que estou divergindo do caminho inicial que a maioria percorre e buscando o meu próprio, vejo que meu pai finalmente desconhece algumas das coisas que estou aprendendo. Mas, seja qual for a motivação, ele nunca se mostrou desinteressado, muito pelo contrário. Conto com o apoio e o abrigo dele porque ele nunca deixou que nada me faltasse. Mais do que isso, conto com o amor e o carinho dele porque foi só com isso que ele me tratou. Agora nada menos justo que uma demonstração de gratidão, certo? Porque é isso o que estou querendo dizer com toda essa baboseira. Sou grata. Talvez não o suficiente, mas tão grata quanto já fui. E espero que ele saiba que sua filha o ama muito.

sábado, 30 de julho de 2011

Este blog não foi abandonado. Acontece que a autora está passando por um terrível e longo período de falta de criatividade.
Grata,         
Clara       

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As Piores Declarações de Amor

  • "Você é perfeito/a."
-Então você não está olhando direito.
-Mas eu também gosto dos seus defeitos!
-Mentira. Até porque isso iria contra a definição de defeito.
1º Fato: Não existe pessoa alguma no mundo inteiro que lhe agrade em todos os aspectos.

  • "Vou amar você para sempre."
-Tá... Mas você vai amar o que eu sou hoje, então? Digo, espero que daqui a alguns anos eu tenha amadurecido um bocado, não serei o/a mesmo/a. E, como nem eu mesmo/a sei quem serei então, como você pode prometer amar o que não conhece? E então você continuaria a amar o que eu era, e não a pessoa em quem eu me tornaria... Ou seja, você amaria alguém que não existiria mais. É  isso mesmo?
-Não! Algo em você sempre permanecerá, certo? Todos  temos alguma essência que é imutável!
-Ahm... Tá. Só que você não tem como saber que parcela do que você chama de minha personalidade é a minha essência. Fora que você também pode - e provavelmente vai - mudar. Você pode mudar de gosto. E você não tem como saber do que vai gostar, se ainda vai gostar do que sou hoje ou se vai gostar do que serei no futuro. E também não tem como prometer que isso não vai acontecer.
2º Fato: Nós mudamos quando amadurecemos, bem como nossos amores.

  • "Eu preciso de você."
-Quer uma mão pra trocar a lâmpada?
-Não, quis dizer que não sei ser feliz sem sem você! *-*
-Cê tá de brinks. '-'
-Não... '-'
-Você está dizendo então que eu sou a única opção para você. É bem isso?
-É...
-Que, já que não há outra opção, não há uma escolha. É isso?
-Acho que é...
-Poxa, achava que você me amava. '-'
-E isso não quer dizer que eu te amo? o_o
-Não, né. Isso quer dizer que você só está comigo porque não tinha escolha.
3º Fato: Só se ama de verdade quando há escolha, quando se pode ser feliz apesar da ausência daquele ser amado, mas se escolhe ser feliz com ele e assim compartilhar e semear a felicidade.


Muitos vão olhar isso com desprezo e negar o que aqui foi dito. Em todo caso, deixo a declaração de amor mais sincera que posso fazer:
"Sabe, eu bem que poderia ser feliz sem você, mas não quero."

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Dia em que me Sepultei

O luto me emudeceu quando morri. Tomada por auto-piedade, estava paralisada frente a meu túmulo selado recentemente. Aquele túmulo que abrigava, obrigava, abrigava meus últimos vestígios de inspiração e paixão, tudo o que em mim era música, todo o coro de minha miríade de vozes falecidas, toda a poesia, todo impulso. Pulso. Aquele meio corpo não pulsava mais, inerte. Em vez disso, no que sobrava de mim do lado de  fora pulsava o frio, por dentro e em volta. A cada arrepio a melancolia diminuía, e sobrava, cada vez mais só, a certeza de que serenidade era apenas um eufemismo para monotonia e tédio.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Querido Cérebro

Querido Cérebro,

Preciso lhe dizer algumas coisas que venho guardando em meu íntimo há algum tempo.
Não aguento mais essa sua incompreensão. Você vive me mandando ser menos bobo, ponderar melhor os prós e contras antes de fazer qualquer coisa, ser mais discreto, menos efusivo... Será que você não entende que sou, por definição, passional? Agir com os sentimentos é minha condição de existência.
Você vive reclamando do que faço, diz que tudo se desequilibra por minha culpa, desde as mãos que tremem até a balança cujo ponteiro sobe. Mas quer saber de uma coisa (não responda)? É muito melhor viver assim do que no seu ritmo entediantemente certinho, como uma máquina. Será que você não entende as vontades movidas unicamente pela beleza e pelo prazer? Será que você não entende que eu sou o seu eu-lírico?
Então, se você puder, deixe-me ser. Deixe-me ser mais vezes. Acredite em mim: você não quer viver num mundo limitado a racionalidades superficiais.

Grato      
Coração

[Inspiração creditada ao meu amiguíssimo Yuri aka Yureco da titia.]